O ano de 1992, quando se realizou a Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Rio 92 – a Cúpula da Terra – marcou o surgimento de iniciativas para sintonizar a Educação à exigência de se fortalecer, nas crianças e jovens de todas as nações, a consciência de que , compartilhamos a mesma humanidade. Nessa ocasião, foi aprovada, por representantes do mundo inteiro - mais de mil e trezentas ONGs - a Carta da Terra ,na qual os signatários se comprometem a construir sociedades democráticas, justas, participativas e sustentáveis e democráticas, adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem estar comunitário, erradicar a pobreza como imperativo ético, social e ambiental, promover uma cultura de tolerância e não violência, além de integrar na educação formal e no aprendizado ao longo da vida inteira, os valores e as habilidades necessárias para se ter uma forma de vida sustentável.
A partir daí o Instituto Latino Americano de Pedagogia da Comunicação, da Costa Rica, lança os conceitos de Ecopedagogia e Cidadania Planetária. No Brasil, o Instituto Paulo Freire passa a disseminar e desenvolver esses conceitos, influenciando a prática de escolas públicas em municípios como S. Paulo e Osasco, dentre outros
Enquanto isso, na Europa, a Educação para Cidadania Planetária do Hemisfério Sul é denominada Educação Global. A Declaração de Maastrich (2002) define Educação Global como “a educação que abre os olhos e as mentes das pessoas para a s realidades do mundo globalizado e as desperta para construir um mundo de maior justiça, equidade e direitos humanos para todos. Falar de Educação para a Sustentabilidade, Educação para a Paz e Transformação dos Conflitos, de Educação Intercultural, é falar de Educação Global. Educação Global é a dimensão global da Educação para a Cidadania”.
A Educação Global já se tornou uma política pública da União Europeia, incentivada por meio dos Centros de Educação Global, que apoiam escolas e agencias educativas não formais, na implementação de processos de aprendizagem transformadora, estimulando o trânsito de uma cultura do individualismo, associada com a dominação, para a uma cultura da parceria baseada no diálogo e na cooperação entre indivíduos, povos, culturas. Pretende-se renovar os currículos escolares, desenvolvendo nos aprendizes competências para criar novas formas de pensar e de agir em uma sociedade globalmente interconectada, rumo a um futuro sustentável.
Para incentivar mudanças no nível local que influenciem o global, as escolas são convidadas a utilizar métodos participativos, integrando movimentos sociais e processos de aprendizagem não formal a processos educativos formais. A metodologia da Educação Global na Europa tem muitos pontos de contato com a abordagem freireana de leitura do mundo. Parte-se de um problema do momento presente e retorna-se ao passado para analisar a sua história, a sua gênese-e, então, levantam-se alternativas de ação que podem moldar o futuro. Os educadores ajudam os estudantes a fazerem a ponte entre o problemas em um micro contexto e a dimensão global, indo da realidade mais próxima - a família, a vizinhança, a escola, a cidade- para a realidade intermediária I a região, o estado. E daí, para a realidade mais ampla (o planeta). Investigam-se as relações entre o micro e o macro, compartilham-se ideias sobre possíveis soluções e parte-se para a ação.
A Educação Global para a Sustentabilidade propicia, assim, a aprendizagem de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes.
Conhecimentos: conceitos e conteúdos da programação normal, enriquecidos por informações sobre processo de globalização, desenvolvimento da sociedade planetária, princípios e acordos globais, pontos comuns e diferenças entre culturas e conceitos que expressam a dimensão global/planetária como os de Justiça social, Cultura de Paz, Economia Solidária, Comércio Justo, Cidadania, Diversidade e outros.
Habilidades: Pensamento crítico, perspectiva múltipla (saber olhar a mesma situação sobre diferentes pontos de vista); reconhecimento de estereótipos e preconceitos; empatia para com os que pertencem a diferentes grupos, culturas e nações; diálogo, assertividade (afirmar-se sem ser agressivo), compreensão da complexidade, das contradições e da incerteza; manejo e transformação de conflitos.
Valores e atitudes: autoestima, autoconfiança, auto respeito e respeito pelos outros; Responsabilidade social; Responsabilidade ambiental; Mente aberta; Atitude Visionária; Pertencimento comunitário participativo e proativo.
2.1-DIMENSÃO GLOBAL-PLANETÁRIA
A ideia de que o Currículo, para ser significativo, deve ligar-se à realidade dos alunos, já é consenso entre os educadores brasileiros. No entanto, quando se pensa nessa realidade, a ênfase recai sobre sua dimensão local e poucas vezes se deixam claros os vínculos entre o local e o global. Essas duas dimensões são, hoje mais que nunca, indissociáveis. Ensinar para a compreensão exige possibilitar às crianças e jovens perceber a complexidade – tudo está ligado, tudo se entrelaça. Enchentes em S. Paulo, por exemplo, tem a ver não apenas com decisões político administrativas locais e hábitos individuais insustentáveis, mas com as equivocadas decisões econômicas e de consumo tomadas nos países mais industrializados do mundo que resultaram nas atuais mudanças climáticas . A morte violenta em uma favela brasileira tem a ver com negócios de armas e drogas ligando diversos continentes. A destruição de uma área de cerrado liga-se à decisão de um país asiático ou europeu de comprar a nossa soja.
Dimensão Global - Planetária é a consciência que devemos ter de que todos os seres humanos pertencem à mesma família- a humana- e dependem de um mesmo ambiente ; que a diversidade de culturas , crenças, línguas , sotaques regionais e nacionais nos enriquece; que todos os países estão interconectados , são interdependentes e o que afeta a um, afeta a todos . Essa consciência é essencial para se garantir sustentabilidade à vida na Terra . Com ela será possível , no futuro, criar uma real interdependência entre Norte-Sul do planeta , estimulando a compreensão das causas da pobreza e a modificação das regras comerciais globais que privilegiam os países ricos em detrimento dos pobres e destroem os recursos naturais
A Dimensão Global Planetária , que esse Projeto está inserindo no Currículo, possibilita tomar consciência de nossa humanidade comum e fortalece as iniciativas por um outro mundo possível, solidário e sustentável. Ela se expressa por 8 conceitos inter relacionados, por meio dos quais é possível fazer a critica da globalização predatória , onde a ganância é o centro e não o ser humano e seu ambiente . São eles : Direitos Humanos, Justiça Social, Resolução de Conflitos, Diversidade, Interdependência, Sustentabilidade , Cidadania Global e Valores e Percepções. Esse ultimo conceito, ao contrário dos demais, não tem especificidade: ele está presente em todos os anteriores.
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